O gancho vem daqui– amor tem de sobra, o que falta é gente qualificada pra receber. O que te qualifica pra receber? Aí depende. É subjetivo demais, emocional demais, inexplicável demais.
Na mesa ao lado, três casais jantavam juntos. A loira de cabelos nos ombros e voz estridente reclamava do namorado, na frente dele e de todos os amigos. Que ele chegou cedo demais para buscá-la. Que no outro dia, atrasou meia hora. Que aos domingos, dorme até o meio-dia. Que deuzolivre se ele acha que depois de casar vai continuar dormindo assim – já pensou?
Não. Não pensei. A única coisa que pensei foi “por quê raios vocês vão casar se ele é tão ruim assim?”. Ruim é ela, pensei em seguida, enquanto escolhia a sobremesa. Entre uma grosseria e outra, vem a pérola: “mais uma cerveja? Você não acha que tá bebendo demais?”. A loira, chata que só, alfinetava o noivo enquanto o garçom, plantado à beira da mesa, ostentava um sorriso pra lá de amarelo.
Discutir na frente dos outros é isso: sorriso amarelo. Desdenhar da pessoa “amada” na frente dos outros é péssimo – hipocrisia, aliás, chamar de “pessoa amada” alguém que você só destrata. O mundo tá cheio de gente querendo ter alguém pra tratar bem. É bom ficar atento.
Olhei, tentando disfarçar, enquanto eles discutiam quantas cervejas já tinham ido goela abaixo. O sorriso amarelo do garçom era compartilhado pelas outras pessoas que jantavam com eles.
Olha pra mim, roupa suja você lava em casa.
Guardadas as devidas proporções, é nisso que eu acredito. Que as relações duradouras são aquelas em que os problemas são discutidos, divididos e resolvidos dentro de casa. Depois que a gente escolhe e é escolhida, tem que dividir muito mais do que a cama, uma garrafa de vinho e o tubo de pasta de dentes. Tem que dividir dias ruins, dias frios, dias cansativos, problemas. Tem que multiplicar paciência, tem que respirar fundo. Tem que ponderar. Mas não tem que contar nada disso pro mundo não. Não tem nada mais feio, deselegante e sorrisoamarelante do que um casal fazendo picuinha em público. Não importa se é o cara que zoa a namorada ou se é a namorada que enche a paciência: é uma bomba de efeito moral pra quem está perto.
Porque o amor, esse bichinho danado que a gente tanto quer pra vida, tem mesmo que ser regado, cultivado, pra durar pelo menos 64 anos. Não adianta amar no Facebook, botar foto com filtro tirada em Veneza, música romântica como legenda. Tem que ser de verdade, de carne e osso. Tem que ter orgulho de quem ama. E ser motivo de orgulho também.
A velha história de deixar o lado bom pesar mais na balança, sabe? Porque daqui a 64 anos, quando você estiver doente numa cama, acredite: só tem uma pessoa no mundo que vai cuidar de você até o fim. Não serão seus pais, nem seus irmãos, nem seus filhos. Vai ser esse cara aí, que bebe muita cerveja, se atrasa sempre e só acorda depois do meio-dia.
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