Havia escrito esse texto em junto de 2009 e, 10 meses depois, continua fazendo sentido.
Hipocrisia: “afetação de sentimento ou virtude que não se tem”. Por isso gosto tanto tanto tanto dele, o Aurélio.
Taí. Depois de muito pensar, enfim descobri um dos piores lapsos de caráter do ser humano. HIPOCRISIA.
Se você não tem uma alma do bem, não diga que tem. Se você não sabe assumir seus erros, não diga que sabe. Se você não supera as coisas, não diga que superou. Se você age como um idiota, não se coloque como um ser superior. Se você não dá conta das suas cagadas, não as faça. Se você preza pela sua privacidade, não saia por aí contando sua vida pra todo mundo. Se você gasta metade do seu tempo se preocupando com a vida alheia, não minta que está ocupado.
As pessoas não são 100% boas, não são 100% más. Você pode ter seu lado cruel, seu lado infantil, seu lado sério, seu lado neurótico, seu lado intempestivo. Você pode pisar na bola, falar bobagem, fazer merda. Nada disso teria a menor graça se o mundo inteiro fosse politicamente correto. Não é feio mentir, errar, se enganar, tropeçar e quebrar um dente. Feio é ser hipócrita. Posar de santo, bonzinho, sensato, maduro, quando, no final do dia, você também tem contas a acertar com sua consciência, assim como todo mundo.
O lado mais insano dos hipócritas é que, para eles, o amor justifica tudo. Não podem relevar ou perdoar porque amam demais. Podem cometer idiotices e justificar da mesma forma: fiz isso porque tenho muito amor aqui dentro. Suportam suas relações vazias num amor incondicional, que sempre brota, mas estão constantemente pedindo provas. Desde quando amor incondicional precisa de suporte? Essa é a hipocrisia na concepção mais pura: justificar coisas ruins com um sentimento bom.
Assim sendo, o inverso da hipocrisia pode ser a nobreza. Nobreza de admitir que às vezes somos maus por maldade, por mágoa, e não por amor. Nobreza de admitir que somos singulares, que temos crises, que extravazamos por impulso e não por amor.
Amor somos nós que carregamos, aqui dentro, nunca o inverso. O amor não nos carrega, não nos justifica e não nos perdoa. Nós o levamos, nós o explicamos, nós nos perdoamos pelo amor que existe, mesmo quando não queremos mais que ele esteja aqui.
ouvindo gogol bordello – wunderlust king
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